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Old 09-16-2008, 09:17 AM   #1
kimusubi0
 
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O verdadeiro Aikidô?!?

O verdadeiro Aikidô?!?
(Nota: este artigo foi redigido na sequência duma intervenção no forum http://aikidoportugal.net/ com alguns melhoramentos e correcções.)
A preocupação de provar a todo o custo que um Aikidô é verdadeiro em relação a um outro falso (como se fosse uma marca de sabonete) é o sinal evidente duma enorme agitação. Sem agitação, a vida das pessoas muda substancialmente. Mas a permanência neste estado não é garantida. No Aikidô não há (ou não deveria haver) fenómeno de monopólio e de exclusão. A partir duma experiência pessoal cada um pode viver "um absoluto" como tal, e não é por isso que alguém deve desencadear "uma guerra santa" para impedir cada um de ter uma trajectória própria. Se entendemos o "verdadeiro Aikidô" como algo de absoluto e pessoal, não pode haver qualquer tipo de certificação a este nível, feito por qualquer pessoa ou organismo (por razões óbvias). Tentar impor um ponto de vista aos outros, pretender ensinar o "verdadeiro método de Morihei Ueshiba" ou de qualquer outro método infalível não ajuda nada a manter a serenidade necessária à prática do Aikidô. Não há muito espaço vital num mundo maniqueísta, onde os moralizadores se apropriam do campo do bem e remetem implicitamente os seus contraditores no campo do mal. Se algumas mentiras se limitam a abusos de linguagem, não será tão grave... até um certo ponto... pois Goebels, chefe da propaganda nazi, dizia com cinismo: "Uma mentira repetida muitas vezes passa a ser verdade".
Seguindo uma Via "Dô", a prática do Aikidô deixa as pessoas abertas e atentas à singularidade e à pluralidade da vida.
A técnica é intrinsecamente limitada a algum enunciado e à sua demonstração. O Aikidô deve evitar fechar-se numa lógica e prática que deixa de se preocupar com as pessoas ou que simplesmente não está concebida para elas em particular. O filme "Charlot nos tempos modernos" retrata bem uma certa incompatibilidade entre a planificação da cadência do trabalho e a vida das pessoas. Acreditar que chegamos ao Aikidô só pela repetição e por um mimetismo vazio é uma crença simpática sem grande consequência. Uma maneira de detectar uma assinatura falsa é quando ela é uma cópia rigorosamente igual.
Quando alguém imita outro, o que se passa é o seguinte: "desmontamos" o movimento e depois voltamos a "montar" com os nossos próprios pressupostos. Quando pintamos, reproduzir fotograficamente não é o objectivo. O importante é ver com os nossos olhos, sentir com todo o nosso corpo, a nossa pele, e apanhar o estado de espírito, ligar-se ao mundo. Quando os Pais amam os seus filhos, eles vão descobrir os gestos adequados para abrir caminhos. Há uma certa diferença entre transmissão e pedagogia.
Naturalidade, ligação e consciência são os pontos fortes duma prática de Aikidô que funciona "de dentro para fora". Fazer esforço sendo possuído pela música, pintura ou Aikidô, não é o mesmo que fazer um esforço voluntarista, desligado do espírito daquilo que fazemos. Não somos nós que pegamos a música, mas é ela que nos pega (o mesmo se passa com Aikidô). Neste caso, a noção de esforço tem um sentido diferente. Nem todos podem chegar a uma expressão/liberdade onde os constrangimentos parecem desvanecer-se. E não são os músculos, a fortuna, a intelectualidade, os títulos que podem mudar algo neste nível.
Não há máquinas para formar artistas. Não são programas ou Universidades que formam os artistas. Não são esquemas pré-estabelecidos que podem levar alguém a ser um artista. Não há qualquer fronteira, classes sociais, ou trabalhos específicos que podem comandar ou condicionar a inspiração. A inspiração é este algo no nosso ser profundo que "fala", que dá aos nossos movimentos a precisão, a leveza, a ligação, a estabilidade, a calma e a consciência.
Para quem quer um percurso repleto de certezas científicas (atingi um resultado, quero, e posso repeti-lo à vontade) tem que escolher outra coisa que o Aikidô. Com o Aikidô não há lugar para esta arrogância que quer controlar e mandar em tudo. É pelo contrário um percurso cheio de incertezas e esforços que levam muitas vezes a nada. Mas este "nada" é também importante, faz parte da procura. A medida certa do nosso esforço é um esforço sem ego.
O exemplo da educação é elucidativo. Uma educação que foi dada naturalmente com precisão, liberdade e amor, sem constrangimentos exagerados, não pode ser substituída por formalismos exteriores mal assimilados. E não é com o livro "As boas maneiras em 10 lições" da Paula Bobone, que vou aprender e conseguir estar à vontade com o mesmo respeito, na mesa do "Presidente da República" ou num outro contexto, na "tasca do Zé". Posso aprender de cór o número de talheres, as fórmulas para dirigir convenientemente a palavra a um embaixador ou a um cardeal, etc, não vai alterar nada a minha eventual falta de jeito; é verdade que pode aliviar alguma ignorância, mas nunca substituir o "fogo" da educação e a sua naturalidade.
Uma transmissão autêntica não pretende dar lições a ninguém. Ensinamos mais por aquilo que somos que por aquilo que dizemos. Para interpretar é preciso pôr os automatismos de lado, abrir-se à experiência e as suas dificuldades, não ser preso do "querer fazer" ou de ser isto ou aquilo. É preciso também ter aprendido as técnicas com a preocupação de soltar-se, sem estar à espera de resultados imediatos.
No fundo o "verdadeiro Aikidô" é o seu Aikidô, é aquele que passa intimamente pelas pessoas, é aquele que manifesta Harmonia com aquilo que nos rodeia, que pode aparecer sem ser convocado, que não podemos verdadeiramente explicar, e que provavelmente não precisa de ser explicado.
Jean-Marc Duclos
14 de setembro de 2008

Jean-Marc
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"Tu as le droit à l'action, mais seulement à l'action, et jamais à ces fruits; que les fruits de tes actions ne soient point ton mobile; et pourtant ne permets en toi aucun attachement à l'inaction. Bh G"
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